sábado, 9 de março de 2013

Memória

Na altura não percebi quanto uma mulher podia fazer diferença na minha vida. Vivera demasiado tempo na enganadora  ilusão de que não precisava de ninguém , de que era muito bem capaz de viver sozinho e por isso dispensava as mulheres , não queria complicações , dizia para mim mesmo.  Como se alguém pudesse ser feliz sozinho...!
Mas tinham  sido muitos os anos de solidão e de um registo unipessoal e não partilhado de vida , que , sem que eu tivesse dado verdadeiramente conta , tinham tomado conta de mim ao ponto de não me aperceber sequer de quanto infeliz realmente era.

Quando ela veio até mim , julgava estar preparado para assumir uma relação a dois . Além de começar a sentir o enorme peso exercido pela solidão , sentia o tempo a escapar-se . No entanto , a bagagem de solidão que carregava não me deixou ver com clareza a oportunidade  que aquela inesperada aproximação me dava e muito depressa a quis afastar de mim.

S. tentava  sair de uma relação que a deixava infeliz e amargurada e tinha visto em mim uma espécie de bóia de salvação para a infelicidade em que vivia. Quis avançar muito depressa , muito mais depressa do que aquilo de que eu era capaz . Eu não estava realmente preparado para romper de repente com um padrão de vida que há muitos anos mantinha , por maior que essa fosse a minha vontade . Eu estava impregnado de individualismo e solidão. Queria muito libertar - me disso , quero muito sair disso , mas as coisas comigo não se mudam do dia para a noite.

Comecei a arranjar desculpas. Desculpas esfarrapadas , vejo eu agora , mas toda a espécie de desculpas . Primeiro tentava convencer - me de que ela não era a mulher certa, que não tinha o corpo com que sempre sonhara para uma mulher , depois que perderia a liberdade a que tanto estava habituado e tanto prezava e finalmente que com ela não poderia ter filhos e isso , de um momento para o outro  , era fundamental para a minha vida.