terça-feira, 18 de outubro de 2016

Fuocoammare, de Gianfranco Rosi: a rotina da vida ao lado da vala comum

(artigo de Francisco Louçã , no Público de 17Out16 )

Fuocoammare, ou Fogo no Mar, é simultaneamente uma melosa canção siciliana dedicada num programa de discos pedidos em Lampedusa, onde se desenrola a acção deste documentário de Gianfranco Rosi a que dá o título, e uma recordação de Maria sobre essa guerra mundial que lhe atormenta a memória.
Como os espectadores descobrirão, a vida prossegue placidamente em Lampedusa enquanto milhares de refugiados são resgatados das águas do Mediterrâneo, tantas vezes enganadoras e mais vezes ameaçadoras (“vamos ter vento de 30 nós”, diz o pai de Samuele). Desses refugiados sabemos pouco e nem vemos as condições em que vivem, não sabemos para onde vão, não conhecemos as suas histórias em detalhe, só o eco de uma récita da travessia pelo deserto até à Líbia, pelas mãos dos traficantes, presos e roubados, ou fugindo do ISIS, da morte e da miséria. Só sabemos como chegam.
E vemos, como se fosse do outro lado do mundo, a terra curta, mas tão deserta, onde os desembarcam. Lampedusa na noite de um miúdo de 12 anos tem árvores sonolentas, pássaros perdidos, esconderijos infantis, pedras nuas. Os pescadores prosseguem a faina, o mergulhador é a solidão a caminho da sua gruta, a mulher puxa os lençóis e arruma a cama, só o médico é chamado a ver os refugiados que chegam. Vê pela máquina, com a ecografia, vê os mortos, inspeciona as mãos dos que chegam, faz uma triagem entre desesperos. Ele sabe que tem que ajudar, que os desembarcados fazem parte da sua vida. Mas são outra vida.
O filme é um retrato de retratos paralelos e foi criticado por isso. Talvez na sua contenção Rosi queira deixar-nos o incómodo de estabelecermos o paralelo entre as nossas vidas, dos que vemos o Mediterrâneo ao longe e prosseguimos a nossa vida mais confortável, e o sofrimento desses que só viajam porque nada têm a perder e de quem até os nomes ignoramos. Os habitantes de Lampedusa, como se fossem o lado de cá, têm nomes, os que chegam do lado de lá não têm.
Vencedor do Festival de Berlim de 2016, este é um filme do nosso tempo. Porque é simples e conta histórias simples, pode ser visto como uma metáfora. Ou somente como uma tristeza e portanto como uma indignação.