quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Acima de tudo mostrar o amor

«Acima de tudo, mostrá-lo (o amor)
O termo inglês “negging” tem vindo a ser utilizado no âmbito de uma pseudo-ciência – de que há, ao que parece, alguns profissionais infamemente conhecidos – que consiste em sistematizar a psicologia daquilo que leva uma pessoa que não se sente atraída por alguém a deixar-se manipular sexualmente por esse alguém, mercê das técnicas de “negging” que esse alguém consegue empregar.
A questão ilumina o assédio constante de que tantas mulheres são alvo por parte de homens a quem assenta, em primeiro lugar, o termo “anormais”, depois “crápulas” e depois... escolham vocês.
Para um estudioso da Antiguidade Clássica como eu, este debate é pertinente devido à “evidência” que ressalta incessantemente na literatura grega e latina, de que as mulheres “existem” para ser assediadas e, a não ser que o consigam impedir de alguma forma, violadas. Quem se der ao trabalho de ler um texto como as Metamorfoses de Ovídio tem todo este ideário sintetizado de forma bastante aterradora, não obstante (como é óbvio) o extraordinário brilhantismo poético com que é expresso.
Ovídio baseou-se em parte num texto de um poeta grego anterior chamado Parténio, texto cujo título quero aqui traduzir (para efeitos deste post) por “Patologias Eróticas” (ἐρωτικὰ παθήματα), embora o pudéssemos traduzir também por “Sofrimentos de Amor”. Trata-se de um texto onde surgem, entre outras situações, exemplos de mulheres abusadas por parceiros sexuais cuja força física e psicológica lhes permite concretizar o abuso. Mas o que me interessa reter desta referência a Parténio é o tema da patologia erótica.
Voltando ao “negging”: está subjacente a esta técnica de assédio a ideia de que “a mulher típica” (?) reage com desinteresse à manifestação de atracção sincera por parte de um homem, achando porém “desafiante” um homem que lhe tira o tapete debaixo dos pés, fragilizando-a, pois, através da técnica do “negging”. No que consiste esta técnica? Consiste em dizer coisas vagamente agradáveis (“és loira, adoro mulheres loiras”) modalizadas de forma desagradável (“mas estás com um bocado de caspa, ou não?”). Esta mistura da carícia verbal aliada ao coice psicológico que visa atingir a auto-estima da vítima é, pois, o básico desse comportamento patológico.
Ora a questão seria facilmente arrumada na prateleira dos comportamentos anormais próprios de grunhos complexados se, no seu encalço, não arrastasse uma outra questão que, já fora do âmbito da patologia grave, não deixa de suscitar dúvidas em muit@s de nós.
E a questão é esta: é verdade que a melhor maneira de provocarmos o desinteresse da parte de alguém que nos interessa é mostrarmos sinceramente que estamos interessad@s? O homem que dá a entender à mulher amada que a acha a pessoa mais fascinante à face da terra não corre o risco de que ela o ache um cretino? Por outro lado, sentirmos da parte da pessoa que “queremos” que ela não nos quer não nos leva a querê-la ainda mais? Estou aqui a lançar perguntas meramente teóricas. Pois pela parte que me toca, sempre fui adepto convicto de mostrar sinceramente, de peito aberto, o que sinto; e sempre apreciei profundamente essa qualidade nos outros.
No entanto, como leitor de poesia antiga e como alguém que, embora não praticando já a arte da ficção narrativa, observa a vida com espírito de romancista, não posso deixar de me interessar por compreender a lógica das muitas patologias eróticas que a vida oferece à nossa análise. E pergunto-me, assim, se “negging” não será uma realidade aparentada com a fenomenologia a que já fiz aqui várias vezes referência: “só gosto de ti se não gostares de mim”.
Que é o reverso negativo da atitude saudável e infalivelmente propiciadora de felicidade recíproca, que é: “quanto mais gostares de mim, mais eu gosto de ti”.»

Frederico Lourenço - FaceB - 7dez2016