terça-feira, 5 de abril de 2016

Portugal Futuro

"O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro."

Ruy Belo , in “País possível” 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Eça de Queirós ainda explica Portugal?

Nuno Costa Santos
«Com as novas edições pela Guerra & Paz e um prémio SPA para "Os Maias" em versão televisiva, tentamos saber se o autor ainda explica o país ou se precisamos de quem faça um retrato sem piedade.
Numa entrevista recente dada ao Observador, José Rentes de Carvalho perguntou como é que nenhum escritor português recriou José Sócrates em termos ficcionais. “Como personagem romanesco é uma mina de ouro. Mas nenhum escritor pegou ainda nele. Nem os mais jovens. Eu faria dele um Rastignac como o de Balzac.”
O colunista João Pereira Coutinho crê que Sócrates não seria uma boa personagem, optando por banhar o seu comentário num caldo de ironia: “Para que um personagem resulte, é preciso um grau de adesão mínimo à realidade. Sócrates e as suas histórias — o amigo do dinheiro, a condessa de Paris, etc. — são demasiado irreais para um personagem realista.”
Maria Filomena Mónica, socióloga e historiadora, vai no sentido da opinião de Rentes de Carvalho: “Sócrates é um político desprezível e uma fonte de inspiração soberba para um romancista contemporâneo.” Em todo o caso a autora de, entre vários livros, uma conhecida biografia de Eça de Queirós assume que vive num universo mental distante destes anos políticos. Habita o século XIX, rodeada das suas figuras, o que lhe causa situações divertidas como a que viveu há tempos. Num grupo, falando com um político importante do PSD, ele mencionou o Marco António. Filomena Mónica fez a pergunta: “O de Roma?”.
Manuel S. Fonseca, editor da Guerra & Paz, editora que recolocou por estes dias nas livrarias Os Maias e A Cidade e As Serras, considera que justamente Rentes de Carvalho talvez seja o escritor que mais se assemelha ao autor de “O Conde de Abranhos”. “Não percebo nada de heranças, mas um notário meu amigo fez o favor de me chamar a atenção para ele.” Talvez por ser estrangeirado tenha, como Eça, “uma visão desassombrada de Portugal e invista nas personagens”.
a cidade e as serras
Capa da nova edição de “A Cidade e as Serras”, pela Guerra & Paz
É legítimo pensar-se que de facto José Sócrates poderia ser um petisco para a pena de um Eça de Queirós. Tal como um Miguel Relvas. Um Duarte Lima. Um Oliveira e Costa. Mas, como diz Rentes, falta quem revele apetência por escrever um romance baseado em figuras que poderiam dar um retrato possível de um certo Portugal político, económico e social – já não o do século XIX mas o do século XXI.

Sombra de nós mesmos

Continua a dialogar-se com o autor de A Capital! mas por via da ficção. Como se ainda fosse uma necessidade conversar com o seu espírito agudo para perceber um presente português que vai escapando à atenção dos autores. No terceiro conto do último livro de João de Melo,Os Navios da Noite, editado pela Dom Quixote, ficciona-se um reencontro, hoje, entre João da Ega e o autor que lhe deu vida.
O texto chama-se “O Regresso de João Maria” e aí se escreve que o país entretanto se engravatara mas que continua com “a mesma raça de indolentes cheios de lábia, uma gente provinciana que o poder arrebanhara e fora tosquiando a seu estrito critério”. Mantêm-se “os mesmos padres santos ou pecadores, os políticos de carreirinha que hoje prometem o que amanhã deixarão por cumprir”.
Diz Maria Filomena Mónica que não foi Eça que “contaminou” a visão que os portugueses têm do seu país, mas a realidade. “Esta imagem está em todo o lado, mas nenhuma figura a ilustra melhor do que o Zé Povinho, um saloio patético que faz manguitos nas costas do patrão, porque, à sua frente, não tem coragem de dizer o que pensa.”
Lê-se no conto que no Largo de Camões, em Lisboa, misturados com nórdicos, passam por ali “os amigos janotas” da família Maia, assim como os Gouvarinho, os Palma Cavalão, os Jacintos, os Pachecos de grande e inútil talento, os Curvelo, os Macários, os Matias que iam a enterrar. (…)”. Pergunta-se: “Como isso era possível – nada ter mudado, continuar-se no mesmo marasmo social, país de castas e tribos, numa seca tremenda, uma tão excelentíssima e reverendíssima sensaboria?”
Segundo João de Melo, Eça fixou “uma sombra ou uma silhueta de nós mesmos”. Não necessariamente rostos ou fisionomias concretas. Tudo o que habitualmente designamos por “tipos” — comportamentos e modos de pensar típicos e caracterizadores de uma “condição” portuguesa. Os clérigos de Eça são, no entender do último Prémio Vergílio Ferreira, “sombras dos antigos inquisidores do Santo Ofício”. Condição patente em O Crime do Padre Amaro, personificado tanto no cónego Dias, da primeira geração eclesiástica, como no próprio Amaro, seu ex-discípulo e, portanto, representante da segunda geração. “Mas não devemos esquecer as grandes figuras do Conde de Abranhos, deputado oco, vazio, pesporrente, de que sempre abundam muitos dos nossos eleitos de hoje, ou a do Conselheiro Acácio, versão negativa do administrador de justiça, cujo pensamento social, por retrógrado e estereotipado, denuncia bem o sistema filosófico em que assentava a noção de cidadania.”
Mais há mais: o cidadão Pacheco, descrito na Correspondência de Fradique Mendes como “homem de grande talento” é, para o autor de O Meu Mundo Não é Deste Reino, alguém que continua no meio de nós. Criaturas, ainda hoje, cuja aura não encontra sustento em obra feita nem em mérito reconhecido. Cita Melo uma famosa passagem queirosiana: “Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento.” No entanto este talento, que duas gerações festejaram, “nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível”.

Condes de Gouvarinho

Pululam muitos por aí, de facto – e muitos reúnem-se pela noite dentro, à volta das mesas de bares decadentes ou em higiénicos chats de facebook, para discorrer sobre os seus “projectos”. Não é difícil, hoje em dia, descobrir Pachecos do Norte ao Sul do país. Mas, sublinha João de Melo, é em Os Maias que mais abunda a chamada “galeria de tipos lusitanos”.
os maias
Nova capa para “Os Maias”
Nem é pelo facto de as suas personagens estarem construídas à medida de uma concepção monárquica do poder que, no entender do escritor, deixam de ser eternas à sua medida. “Estes é, de algum modo, o Portugal dos condes de Gouvarinho, dos banqueiros ociosos, dos jornalistas venais, dos ‘dandies’ pretensiosos e inúteis, mas também dos Joões da Ega e dos Carlos da Maia inconsequentes e igualmente inúteis.”
Manuel S. Fonseca pensa que é grande a tentação de usarmos Eça como se fosse uma kalashnikov. “Ele disse coisas sobre políticos e fraldas e outras muito pouco platónicas sobre a Grécia que parecem quase ser respostas directas – e directas já – a situações políticas actuais”. Mas Fonseca prefere fazer justiça à “bela cabeça de Eça” e o que vê nessa mesma cabeça é “desenhar-se um humaníssimo teatro do mundo de fantasia e ficção universais, que vão além da urgência política”.
No feminino, por exemplo, vê muitas diferenças: “É provável que ainda haja Padres Amaros a seduzir Amélinhas. Mas quero acreditar que sobretudo as mulheres portuguesas mudaram muito, para não dizer tudo.” Hoje, a mulher portuguesa urbana é, nas palavras de Fonseca, “senhora de si, do seu destino e faria morrer de inveja a loiríssima beleza da Maria Eduarda de ‘Os Maias’”. Ou talvez não, nota Manuel. Talvez a mulher portuguesa moderna seja hoje uma irmã de Maria Eduarda, com “o mesmo passo de deusa”, “o resplandecente decote” que o vestido preto realça.

Uma aldeia chamada Chiado

Eça de Queirós ainda explica Portugal? “Sim e não”, diz Maria Filomena Mónica. “A sociedade da segunda metade de Oitocentos era diferente da de hoje”. Recorda a presença significativa de padres e de beatas, personagens ao tempo com poder, mas que passaram à História. “Leia-se o esplendoroso início de ‘O Crime do Padre Amaro’ sobre a morte do pároco da Sé de Leiria. Figuras como esta não poderiam surgir num romance contemporâneo porque já não existem”. Lembra ainda que, numa era em que as adolescentes tomam a pílula, não teria ocorrido ao padre Amaro a ideia do infanticídio nem a Amélia teria morrido. “Há finalmente as cenas sacrílegas que deixaram de poder ser compreendidas pela maioria da população contemporânea.”
Lisboa, para o editor da Guerra & Paz, nunca existiu. “É uma dessas cidades muralhadas que constam do ‘Dicionário dos Lugares Imaginários’ de Alberto Manguel e Gianni Guadalupe. E tal como descobriram o Yoknapatawpha County nos livros de William Faulkner, Manguel e Guadalupe descobriram essa imaginária cidade de Lisboa nos romances de Eça.” Essa cidade de luz límpida tem no seu centro “uma aldeia chamada Chiado”, pela qual se passeiam insólitos homens de fraque contrastando com o pano de fundo de uma população anémica. Há um grande Terreiro, ao qual o escritor de monóculo chama Arcada. “O olhar dele perde-se, desliza, flutua sobre um rio como é impossível haver um rio assim na prosaica realidade”.
Mário de Carvalho é um dos raros autores, num país muito dado ao lirismo mesmo na prosa, que, através de uma linguagem escolhida com esmero, fazem uso do humor satírico e da ironia nos seus romances. Para responder à pergunta “considera-se influenciado pelo tom de Eça?, Mário de Carvalho recorda uma conversa com um escritor seu amigo, António Torrado. “O Eça pega-se”, disse-lhe Torrado.
Lisboa, 13/06/2015 - Realizou-se esta tarde na Feira do Livro de Lisboa entrevistas com escritores e editores. Mário Carvalho (Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens)
O autor de Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde assume os perigos do vírus queirosiano: “De facto, se não nos acautelarmos, a maneira queirosiana vai-se insinuando, subtilmente, entre as nossas linhas”. Mas o perigo de contágio advém de uma pesquisa necessária do cânone literário que nos trouxe até aqui. “Há uma literatura secular em Português com que temos de nos confrontar. Eça está lá. Desafia-nos. Ainda que se deteste, o que tem acontecido, aliás com jactância, não há que fugir-lhe. Ou então paga-se um preço bem alto.”
O também autor de “A Sala Magenta” crê que a excelência do artifício de um autor excelente como Eça está em fazer crer que o mundo é realmente assim. “Mas trata-se de puro fingimento. Eficaz, sem dúvida”. Relembra “A Relíquia”, romance que, ainda hoje, há quem prefira, a seu ver, ocultar. “Anda por lá um Alpedrinha, português trota-mundos encontrado em Alexandria, que vai ‘carregando fardos alheios’ por casa do Diabo Mais Velho, sempre prestável, disponível e saudoso da Pátria: ‘-E o cavalheiro recebeu alguns jornais da nossa Lisboa? Gostava de saber como vai por lá a rapaziada…’ O ‘derradeiro lusíada’, chama-lhe Eça”.
Mário de Carvalho usa de uma formulação curiosa para trocar umas ideias sobre o assunto: “Sem querer ser desmancha-prazeres, nem frustrar um interessante exercício lúdico, eu era capaz, tomando o apelo de Eça a Bulhão Pato, de pedir aos ‘portugueses’ que saíssem de dentro das personagens dele.” Tal como defende o editor da Guerra & Paz, considera que a Lisboa de Eça, como Jerusalém, ou Leiria, são criações do autor, a partir de referentes reais. Mas, alega, é inegável que Eça criou tipos universais que evocam “comportamentos”, “atitudes”, “falas do mundo real” dos nossos tempos. “Quando comentamos um certo discurso ‘acaciano’, dizemos que tal ou tal fulano é um ‘Zé Matias ou um Gouvarinho’, ou reproduzimos falas como ‘há talento, há saber…’, ‘ainda o apanhamos’, ou ‘a inveja da Europa’, damos testemunho da genialidade criadora de Eça.”

A choldra

Há quem ache que o desdém queirosiano pelo país da “choldra” está disseminado, revelando-se no português comum, em todas as oportunidades que encontra. Por exemplo, naquele taxista que destrata o Portugal dos “tachos” quando passa perto da Assembleia da República. As palavras são de Manuel S. Fonseca: “Faça-se o taxista português num almofariz, pisando-se muito bem o cebolinho que é o Eça e o alho que é o Camilo. Há nele um desmesurado e avassalador ódio ao mundo e o gosto pelas Marias que matam a sua mãe”. E acrescenta: “Seja como for, o país, hoje, já apanhou um táxi que o Eça do ‘americano’ desconhecia.”
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“Os Maias”, na adaptação de João Botelho
João de Melo defende que é preciso afastar a ideia de que Eça era um “estrangeirado” e de que “não gostava de Portugal”. “Não é verdade: por o ter amado tanto é que ele o quis projectado sobre a ideia do progresso e da República”. Para Maria Filomena Mónica, o que leva grande parte dos portugueses, especialmente os que nunca leram Eça, a considerar que tudo quanto ele escreveu se aplica ao Portugal de hoje são factores estruturais: a incompetência dos políticos, a pobreza do país e a dependência do Estado.
“É sobretudo em ‘As Farpas’ que a magnífica raiva do jovem Eça é mais notória.” O inimigo principal são os políticos. Cita três pequenos extractos: “O corpo legislativo há muitos anos que não legisla. Criado pela intriga, pela pressão administrativa, pela presença de quatro soldados e um senhor alferes, e pelo eleitor a 500 réis, vem apenas a ser uma assembleia muda, sonolenta, ignorante, abanando com a cabeça que sim.”
Sobre o governo do dia (1871): “Não governa, não tem ideias, não tem sistema; nada reforma, nada estabelece; está ali, é o que basta”. A conclusão era, para ele, óbvia: “E assim se passa, defronte de um público enojado e indiferente, esta grande farsa que se chama a intriga constitucional. Os lustres estão acesos; o país distraído; nada tem de comum com o que se representa no palco; não se interessa pelos personagens e acha-os impuros e nulos”.
Pereira Coutinho identifica os portugueses como sendo assim: a oscilação permanente entre o dramático e o indolente. “Ora nos matamos ora chegamos à conclusão que não vale a pena e o melhor é fazer uma jantarada.” Nada é sério porque nada é levado a sério. O que parece ser um defeito é, para o autor de Vamos ao Que Interessa, a nossa maior virtude. “E Eça captou-a.”
Eça chamava a atenção para o facto, “triste”, de os portugueses não se poderem dar ao luxo de ter princípios: “Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio-dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó. Este caldo é o Estado”.
Ainda se este fosse rico, diz, talvez as coisas se compusessem. Não sendo esse o caso, logo surgia o abatimento geral: “Ora, como o Estado, pobre, paga tão pobremente que ninguém se pode libertar da sua tutela para ir para a indústria ou para o comércio, esta situação perpetua-se de pais a filhos como uma fatalidade.” O resultado não podia ser mais confrangedor: “A pobreza geral produz um aviltamento na dignidade. Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse.” Um retrato deprimente muito distante do que se pode fazer do país nos dias de hoje?
Conclui Maria Filomena Mónica que não foi Eça que “contaminou” a visão que os portugueses têm do seu país, mas a realidade. Em Portugal, sempre se imaginou o mundo dividido entre “nós”, as vítimas inocentes, e “eles”, os que mandam. “Esta imagem está em todo o lado, mas nenhuma figura a ilustra melhor do que o Zé Povinho, um saloio patético que faz manguitos nas costas do patrão, porque, à sua frente, não tem coragem de dizer o que pensa.”

Temperamento nacional

João Pereira Coutinho crê que Eça não é um taxista avant la lettre. “O discurso da choldra sempre fez parte da visão que os portugueses têm de si próprios.” Correndo assumidamente o risco de cair num paradoxo, reflecte que essa auto-flagelação permanente é um dos grandes traços da nossa megalomania. “Dizer que Portugal ‘é o maior do mundo’ ou ‘o pior do mundo’ revela o mesmo tipo de narcisismo, embora retratado de perspectivas distintas.”
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João Pereira Coutinho
Segundo Coutinho, cronista e professor universitário, Eça explica bem Portugal e os portugueses mas não pelas razões usualmente citadas: a crítica aos políticos, à nossa pequenez mental, ao provincianismo de uma cultura que se limita a imitar o que vem de fora. “Mais importante do que isso é a capacidade que Eça tem de captar o temperamento nacional”. Nos seus romances acontecem aos maiores torpezas: situações como um irmão que dorme com uma irmã e como um padre que engravida “uma donzela” e depois manda matar o filho. Mas esses momentos trágicos acabam sempre em “pilhéria” — anos depois, o padre passeia-se por Lisboa e confessa que agora só se envolve com casadas.
Pereira Coutinho identifica os portugueses como sendo assim: a oscilação permanente entre o dramático e o indolente. “Ora nos matamos ora chegamos à conclusão que não vale a pena e o melhor é fazer uma jantarada.” Nada é sério porque nada é levado a sério. O que parece ser um defeito é, para o autor de Vamos ao Que Interessa, a nossa maior virtude. “E Eça captou-a.”
Quem é que herdou a voz de Eça no Portugal de hoje? A resposta é logo disparada: “Os nossos melhores cronistas. A grande prosa do século XX, em Portugal ou no Brasil, está nos cronistas de jornal.” A razão, no entender do colaborador da Folha de São Paulo, é simples: o romancista nacional está essencialmente apaixonado pelo seu “mundo interior” e não pelo “mundo exterior” que ocupava a pena de Eça.
Quando pensamos no século XIX, pensa-se em Eça e, mesmo que o seu retrato social seja apenas uma interpretação do próprio sobre o país que muitos historiadores contestam, pelo menos há essa ambição: “retratar Portugal”. Mas se as gerações vindouras quiserem saber o que era Portugal em 2016, elas lerão quem?, pergunta Coutinho: “Ninguém. Os nossos escritores estão demasiado apaixonados por eles próprios para concederam à realidade qualquer tipo de importância”, o que, para o próprio, tem como resultado uma “prosa estéril e que não deixará rasto”. Será que Portugal precisa de um novo Eça?
Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.»

domingo, 3 de abril de 2016

Mãe

"Mãe
hoje abriu-se uma janela pela primeira vez
mas tudo o que pudeste ver foi um
pequeno lago de águas
adormecidas,
rodeado por margens de areia brilhante
um pequeno lago alimentado por
inúmeros afluentes
Mãe
passou uma semana e o meu minúsculo
coração agita já as águas desse
lago
Estou agarrado à margem vejo ao longe
uma pequena bóia
mas o medo impede-me de me afastar
Mãe
porque é que andas tão enjoada?
Passas a vida a correr para o quarto de
banho
Não toleras o cheiro a fritos nem o after-chave do pai
Espero que não enjoes do cheiro a jasmim
Por favor não me confundam com um
girino
Embora não tenha nada contra as rãs
e muito menos contra as libélulas que
povoam os outros lagos
Mãe
estou a ficar velho
disseram-me que já deixei de ser embrião
Mediram-me a translucência da nuca
e eu aproveitei para realizar algumas
pequenas acrobacias
Hoje fiquei finalmente a saber que tinha
ventrículos pulmões
estômago e uma série de coisas mais
incluindo uns grandes lábios que quase
pareciam bolsas escrotais
E eu pensava que aquilo que tinha entre as
pernas era uma rosa
Mãe
Porque é que meu coração bate tão
acelerado?
Por mais que tente não consigo
sincronizá-lo com o teu
Mãe
Só conheço a cor do crepúsculo
Estou morto por conhecer as outras cores
do arco-íris
Mãe
Hoje surprendi-te quando te olhavas nua
ao espelho
as mãos sobre o púbis segurando a
barriga enorme
Mãe
Às vezes os dias são um pouco
monótonos
de forma que entretive a fazer nós com o
cordão umbilical
Mãe
Estás com umas olheiras enormes
Pelos vistos não te deixei dormir
Passei a noite toda a deambular pelos
recantos mais sinuosos do teu
útero
a ver se descobria alguma água-marinha
Mãe
Podias ter colocado alguns peixinhos no
líquido amniótico
Já agora um beta e alguns escalares
E porque não alguns nenúfares?
Mãe
Apetecia-me uma bebida diferente
que não a minha dose diária de urina
Mãe
Esta noite tive um pesadelo horrível
Sonhei que te tinham cortado os mamilos
com uma lâmina de bisturi
Mãe
Apetecia-me chorar
mas é difícil chorar assim debaixo de água
Mãe
O que está a acontecer?
O teu útero começou a contrair-se
e as contracções vão-se tornando cada
vez mais freqüentes
Mãe
O que é que eu fiz
para me expulsares desta maneira?
Mãe
A distância entre mim e ti
não se mede em centímetros mas em
lilases"


Diário de Bordo, Jorge Sousa Braga

quinta-feira, 17 de março de 2016

Amor, Sexo


"Fui aconselhado a escrever mais sobre Sexo. Não por um editor apenas interessado em tirar partido do meu sex-appeal, que é razoável, mas pela via literária séria, partindo do princípio de que a escrita pode levar ao entumescimento e ao ingurgitamento, tanto como à náusea se a dose não sair na medida certa. Deitado na cama à etrusca pensei numa primeira abordagem sobre esta matéria de peso. Por exemplo, se o peso pode interferir com a fluidez, e na fluidez há todo um caudal de emoções. A perda de peso (nas partes certas) poderá levar a uma performance mais apurada? Ou, tal como um cantor lírico enxuto, dará azo a um fiasco, pois há coisas que é preciso porte? Importa o tamanho ou tudo é uma questão de arrumo e de encaixe certo? Como será o sexo no século XXIII? Ou no LVI? E o Amor, onde cabe? Unir as partes (o sexo e o amor) é uma aspiração mais feminina ou também se apresta aos homens sentimentais? Não se pede amor, carinho, tal como não é de bom tom pedir-se sexo como quem pede uma bolacha. O amor (intenso, maduro), não o amor possessivo, caprichoso e narcisista, nasce de um concílio, de um enigma físico-químico, tal como uma boa trolitada (digamos assim). Para se chegar ao amor, pode muito bem ter que se passar pelo sexo e vice-versa, como dois números invertidos em forma de cisne."

Tiago Salazar , FB, 16MAR16

domingo, 13 de março de 2016

A pele de Cavaco e os milagres de Marcelo


ALEXANDRA LUCAS COELHO 


Portugal, que não é um fado, continua a viver com a ilusão dos eleitos

1. Portugal largou Cavaco como se mudasse de pele. Nenhuma transição desde o fim da ditadura gerou este alívio, quase uma libertação nacional. Marcelo tomou posse do momento, impaciente de optimismo e ecumenismo: apaziguar, unir, sorrir, curar. Descendo a minha rua, vi lágrimas no meio do povo, aos pés da Assembleia. No item empatia, foi a passagem do zero para a maioria absoluta. E aí vai Portugal para a Primavera de 2016, cheio de fé renovada.

2. Fé em cima de amnésia, toda uma tendência. Portugal erra entre aquilo que larga e aquilo a que se agarra, de qualquer das formas sem pensar muito. Um exemplo daquilo a que se agarra é a aventura épica dos séculos XV-XVI. Um exemplo do que larga é a violência ainda encoberta do Império. As navegações não deixam de ser épicas porque o Império foi violento e vice-versa, os prismas têm várias faces, mas Portugal teme que um ângulo anule o outro, então tapa um e mitifica o outro, em glorificações não apenas ultrapassadas, tendo em conta o que é hoje o conhecimento histórico, como sobretudo sem coragem. Celebrar os Descobrimentos será um suplemento de ânimo sempre à mão; já ir ao fundo do que foi o Império implica enfrentar o que os portugueses também foram/são, ou afinal não. Eis o que o discurso oficial continua a falhar, nas escolas, na política, perante os países de língua portuguesa e a vocação universal de que falou Marcelo.

3. O presente faz e refaz a História, para a frente, para trás. Seremos fontes da história futura, que resultará da forma como Cavaco for pensado agora, do que estes 10, aliás, 20, aliás, 36 anos dizem sobre Portugal. Cavaco foi ministro, primeiro-ministro e presidente com milhões de votos em múltiplas eleições. Não é uma breve pele do acaso que a história há-de ler nas calendas. Os milhões que votaram nele constituem uma grande parte deste país. Várias vezes escolheram um homem baço, sério, rígido, desconfiado, conservador, autoritário, espécie de âncora, o contrário da aventura. Na cronologia, e por feitio, Cavaco estabelece o grande arco entre a figura de Salazar e a era democrática, com a inserção na União Europeia. E, desde o 25 de Abril, simbolizará como nenhum outro governante uma limitação portuguesa. Nas fabulosas oportunidades de contacto com outros, os portugueses tentaram muito mais transformá-los ou buscar rendimento do que transformarem-se, aproveitarem para ser outros: mais. A proverbial acomodação emigrante reforça isto. Saudosa e idealmente temporária, a diáspora molda-se mais do que muda. Mas Cavaco tinha pouco de maleável e essa resistência à transformação encontrou nele um expoente, foi-se sedimentando ao longo de 36 anos. Não tanto uma pele do país, Cavaco será um fóssil, a petrificação daquilo que limita os portugueses, os impede de mudar, e portanto é preciso ler.

4. Dos manuais escolares à política, o Portugal passado cobre-se de glória. Entretanto, quem encara os buracos negros tende a ser comido pelas formigas. Depois de se doutorar em Direito Canónico, estudar Letras, traduzir, editar, intervir, ser leitor em Madrid e ter escrito alguns dos mais lancinantes poemas do século XX, Ruy Belo morreu desempregado, sem lugar numa universidade. No recente documentário, Ruy Belo, era uma vez, José Tolentino Mendonça diz que Portugal precisa de uma refundação, ecoando um apelo que vem da própria obra de Ruy Belo, e mais do que nunca me parece urgente. Portugal, que não é um fado, continua a viver com a ilusão dos eleitos, seja o Quinto Império, o Mundial de Futebol, ou o Michelin do Turismo. Não mais brando do que os violentos, matou, escravizou milhões, extraiu riquezas, e isso também tem de ser integrado na narrativa oficial. Caberá a cada um rodar o prisma o bastante para não continuarmos a ver apenas uma imagem que nos repete, e repete, e repete.

5. Apurado intérprete do momento, Marcelo viu a que ponto Cavaco, o país e o mundo deixaram de coincidir. E sendo o cristão hiperactivo que é, ao mesmo tempo empático e solitário, parece haver nele certa vocação refundadora, começando pela imagem da figura paterna de todos os portugueses. Um pater saltarico, risonho, maleável, que vai a pé para a posse, e reza ao lado de evangélicos, ortodoxos, judeus, baha’is, hindus, ismaelitas, xiitas, sunitas, sikhs, mórmones. Idealmente, a religião deveria ficar fora dos rituais de estado, mas a relevância política da cerimónia ecuménica sobrepôs-se a isso. Se, desta forma, mais gente sentiu que é parte de Portugal, e tanta gente viu que Marcelo incentiva isso, fica marcada a diferença. Não será demais sublinhar este gesto inaugural, com tanta gente à porta da Europa.

6. Mas o discurso da posse integrou os lugares comuns habituais, uns para a direita, outros para a esquerda, com a novidade de um tom caloroso, e o recuo a um saudosismo messiânico. Por exemplo, Marcelo enumerar as singularidades nacionais, e à pobre da saudade, que mal se aguenta nas canetas, suceder a “crença em milagres de Ourique”. Imagino resmas de portugueses sub-40 a pesquisarem milagres de Ourique no telemóvel. Entretanto, o orador citava já aquele “Herói Português do século XIX” segundo o qual “este Reino é obra de soldados”. Mais resmas de portugueses não estariam a ver quem seria esse herói, mas com certeza o presidente de Moçambique, saudado no parágrafo anterior, percebeu: porque o tal herói é nada menos do que Mouzinho de Albuquerque, que no século XIX capturou e desterrou Gungunhana, futuro mito da resistência para os moçambicanos. Em resumo, perante o ex-colonizado, Marcelo citou o colonizador vencedor, não aludindo ao vencido, e Portugal apareceu como reino e obra de soldados. Tudo isto, rematado pela frase “converter o Império Colonial em Comunidade de Povos e Estados independentes, prometendo a paz, o desenvolvimento e a justiça para todos”, sem uma palavra sobre a violência desse império, cujas consequências se mantêm vivas até hoje, como sabe quem conhece países da CPLP. O império passa suavemente a CPLP, nenhum sub-40 terá nada para googlar, em breve ninguém saberá do que aconteceu a não ser em calhamaços, que em breve ninguém lerá. O irónico é que, a seguir, abrindo uma longa citação de Miguel Torga, vinha a chave do problema de Portugal e deste discurso: “Nunca soubemos olhar-nos a frio.” Mas a parte que Marcelo pretendia acentuar era a sequência disso, a do povo-eleito em versão Torga: “Somos a própria inquietação encarnada. Foi ela que nos fez transpor todos os limites espaciais e conhecer todas as longitudes humanas… Temos ainda um grande papel a desempenhar no seio das nações, como a mais ecuménica de todas.” Comentário-síntese de Marcelo: “Valemos muito mais do que pensamos ou dizemos.” É mesmo? Eu tanto diria isso como o contrário, porque os portugueses oscilam entre a falta e o excesso de auto-estima. Talvez o verdadeiro desafio seja pensar essa perpétua descoincidência. Determinado a apostar todas as fichas na auto-estima, Marcelo concluiu: “O essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo. Ela nos fez como somos. Grandes no passado. Grandes no futuro.” Não acredito nisto, não me parece caminho justo e não aplaudiria.

7. Grande não seria Portugal romper o ufanismo? De que adianta suturar, unir e rir, se por baixo a coisa continuar preta? Enquanto alguém quiser o pastiche de uma nau ou um museu para “celebrar os Descobrimentos” não teremos avançado. Portugal continuará a repetir os velhos mitos que o confortam e adiam, ora desconfiado, ora ufano, nunca mudando o ponto de vista. Não se trata de celebrar ou largar o passado, mas de o encarar a partir do que investigadores têm feito e, espera-se, continuarão a fazer (veio, aliás de um historiador, Diogo Ramada Curto, o comentário mais interessante que li ao discurso de Marcelo, incluindo mencionar a ausência de um Jaime Cortesão, ele que, exilado político no Brasil, tanto pensou a relação com o ex-Império). Incorporar esse refazer da história nas escolas, na política, na diplomacia, sem saudade e sem lamento, seria a coragem que ainda não houve.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O CASAMENTO NÃO É PARA XONINHAS

«Soube há pouco de mais dois amigos que se separaram. Assim, calma e civilizadamente, com uma certeza que arrepia, especialmente a quem, como eu, os conhecia e imaginava impossível esse desfecho.
Davam-se bem, eram compatíveis, no mesmo patamar intelectual, lavadinhos e cheirosos e ele diz-me “Estava farto daquilo, do de sempre, a vida há-de ter mais para mim”.
Não tive resposta na ponta da língua, como é meu hábito. Turvou-se-me o olhar e a voz na garganta. Tenho-a agora.
– A vida vai trazer-te mais coisas, com certeza. Não sei é se serão melhores.
Fomos criados no mundo dos estímulos, do consumo, da vertigem e nada nos chega.
Os nossos filhos nunca são suficientemente bons, bonitos ou geniais e enchemo-los de dietas, laços e desportos. O emprego é sempre aquém do que queremos ou podemos fazer. O carro está velho e a casa pequena. Os amigos estão maçadores e cheios de defeitos, o cinema cheira a mofo. Já ninguém come carne guisada com ervilhas porque o Oliver inventou que cozinhar é sexy e há sempre coisas mais difíceis e estimulantes para fazer.
É assim no amor e no desamor.
Não acho que as pessoas devam ficar juntas toda a vida se não se amam ou respeitam e sou profundamente grata ao Criador pela invenção do divórcio que os seus pastores não defendem. Às vezes enganamo-nos com as pessoas como nos enganamos com tanta coisa e devemos ter o direito de pedir desculpa e bater em retirada. Nem aos meus filhos eu obrigo a comerem o que não gostam até ao fim. Mas levo-os a experimentarem e insistirem um bocadinho até que percebam se não gostam mesmo ou só estranham o desconhecido.
Passei os olhos pelos títulos das revistas, pelos posts dos blogues e tudo nos diz que o amor deve ser espectacular, que na cama devemos dar duplos mortais encarpados, que o próximo jantar deve ser confitado com uma merda qualquer, que a próxima viagem tem que envolver destinos exóticos e comidas afrodisíacas. Que não podemos aparecer doentes ao nosso amor, que ele tem que usar aquelas camisas upgraded com dois colarinhos, mesmo quando está a cortar lenha, que ele tem mesmo que cortar lenha ainda que em casa só haja radiadores e que nós temos que lavar a loiça em cinto de ligas e acessórios bondage.
Ninguém defende mais do que eu que as relações devem ser cuidadas, que o amor não resiste sem cerimónia, encanto e pequenos truques de magia. Mas isso é o que se faz ao amor, não é o amor em si mesmo. O amor também é acordar despenteado e dar um beijo antes de lavar os dentes sem achar estranho, pedirmos mimo quando estamos doentes e parecemos um cruzamento do Nel Monteiro com o Chucky – o boneco assassino. E ver um filme, beber café, discutir, chorar, perder a fé, fazer cedências, ficar doido ou doida de raiva, desiludirmo-nos, desencantarmo-nos, pedir desculpa com ou sem razão e com ou sem intenção. É sair à noite e dançar e dar beijos na boca como se fosse a primeira vez, quase fazer amor no carro tal é a urgência. É a feira da semana e o supermercado aos gritos e nem se dar por isso ou dar-se mesmo por isso e pensar que nós é que temos razão quando queremos comprar online e porque é que eu ainda vou na conversa deste/a gajo/a.
É adormecer sossegado e protegido como um bebé e acordar feliz porque está ali o cheiro do outro que já passou a ser nosso ou rabugento porque ele/a acendeu a luz – Para quê? Se me amasses partias os dedos dos pés e pisavas o gato mas não acendias a luz enquanto eu estou a dormir. O amor é uma coisa simples que às vezes se torna excitante. Há noites em que é ácido como limão. Mas é um alimento certo, uma refeição quente, de casa. Garantida. E vem das mais diversas formas.
– Já chegaste?
– Já. Está muito frio. Agasalha-te bem, a ti e às crianças.
Não sei o que é que a vida nos pode reservar que seja muito melhor que isto. »


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sábado, 6 de fevereiro de 2016

A aldeia

A aldeia , é uma espécie de casa grande.

Quase todos se conhecem , todos se cumprimentam e , quando é necessária , a entreajuda surge naturalmente . Uma família alargada , portanto , com tudo o que existe nos agregados de sangue: solidariedade , amor fraterno , presença , união de esforços ,  mas também divergência de opiniões , algumas zangas e , por vezes , oposição impetuosa entre alguns dos seus membros .

Viver na aldeia é ter um manto protector sobre a alma. Facilmente encontramos pessoa amiga quando a solidão aperta , a tristeza nos atinge ou a doença nos afecta. Em sentido oposto , é também com naturalidade que encontramos com quem partilhar a alegria e os momentos felizes.

Viver na aldeia é poder saborear o silêncio , só ou em companhia.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sol de Inverno

O sol quente faz-me esquecer que ainda é Inverno.
Entra agora pela janela larga da sala , sem pudor, sem pedir licença. Parece chamar-me...
Vou então para a poda das macieiras , prepará-las para a frutificação , com uma luz ampla e nítida , uma tesoura nas mãos , um boné na cabeça e um sorriso de menino desenhado no rosto.

O pensamento

«A chave de todo ser humano é o seu pensamento. Resistente e desafiante aos olhares, tem oculta uma norma , a que obedece, que é a ideia ante a qual todos os seus factos são interpretados. O ser humano só poderá ser reformado mostrando-lhe uma ideia nova que supere a antiga e traga comandos próprios.»




Ralph Waldo Emerson

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Normalidade

" Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco! Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois ao vê-los loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril. "
- Oscar Wilde

(roubado a Nakkedsoul Nakkedsoul , FB , 1fev16)

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”



Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.


O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.
Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.
Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.
Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?
Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.
"Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade”
P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?
R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.
P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?
R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.
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O sociólogo Zygmunt Bauman. /

P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.
R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.
P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.
R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.
P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.
"O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves"
R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.
P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?
R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.
P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?
R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
Estado de crise. Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. Editora Zahar. 192 págs., 39,90 reais.
"el país/brasil" - 9jan16