11H15mn - Mais um dia sem chuva. Um pouco de vento , é certo , algum frio , mas o céu está azul com nuvens brancas , lá no alto.
Estamos um pouco para lá do meio de Fevereiro , que é um mês curto e manhoso, diferente dos demais.
Acordei relativamente bem. Um pouco sem ânimo , mas bem. Pensei até que o mal-estar que me tem acompanhado desde domingo se tivesse ido embora , mas não , não foi. Ainda está comigo.
Depois do frugal pequeno - almoço , sem leite , conforme prescrição da minha médica particular - a minha mãe - , comecei a sentir de novo as náuseas , as tonturas e as dores de cabeça que , não sendo fortes , não deixam de arreliar. Duram até agora !
Ainda saí para comprar cigarros - que são uma espécie de bálsamo - levando a expectativa que a curta caminhada até ao café me fosse fazer bem. Engano ! Puro engano ! Continuo na mesma! O estômago , o aparelho digestivo ou o que quer que seja , conspiram contra mim. Raios os partam! Logo agora que estava cheio de planos e de tarefas para cumprir. Os astros não estão alinhados comigo. Que grande chatice!
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Sábado.
Chove!
Dentro de mim uma brisa de tristeza passa ao de leve sobre o meu coração.
Faltas tu . Falto eu e tu.
Contudo , estás em mim , quando fecho os olhos.
Uma brisa, serpenteante . Um tímido desejo . Está longe e perto.
Os lábios húmidos , o coração desperto.
Conto os dias , as horas , os minutos.
Dentro de mim uma brisa de tristeza passa ao de leve sobre o meu coração.
Faltas tu . Falto eu e tu.
Contudo , estás em mim , quando fecho os olhos.
Uma brisa, serpenteante . Um tímido desejo . Está longe e perto.
Os lábios húmidos , o coração desperto.
Conto os dias , as horas , os minutos.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Gatos
Os gatos são ensimesmados ,
( pensam muito ! )
Senhores do seu nariz...!
Ao sol se sentam , depois se deitam,
rebolam sobre si.
Em seguida, vêm até mim ,
Ninguém lhes diz.
Semicerram o olhar,
serenos ,
como se estivessem a filosofar!
( pensam muito ! )
Senhores do seu nariz...!
Ao sol se sentam , depois se deitam,
rebolam sobre si.
Em seguida, vêm até mim ,
Ninguém lhes diz.
Semicerram o olhar,
serenos ,
como se estivessem a filosofar!
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Adolfo Casais Monteiro
Paz aos Mortos
Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado... o passado vivi-o, que fazer?!
- e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.
Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.
As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer.
Adolfo Casais Monteiro, in 'Sempre e Sem Fim'
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado... o passado vivi-o, que fazer?!
- e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.
Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.
As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer.
Adolfo Casais Monteiro, in 'Sempre e Sem Fim'
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Impressões II
Um conflito interno, penoso, dilacerante, deixa – me na
terra de ninguém, um espaço entre as fronteiras do que sou, digo e faço e do
que quero ser, dizer e fazer.
É dilacerante!
Tão dilacerante que depressa me leva a cair no abismo cavado
pela interrogação, pela dúvida e pela incerteza.
Os meus pensamentos vogam desorganizados, pelo céu que lhes
dá casa, sem que eu consiga colocar ordem neste desenfreado continuum de
sensações interiores que em redemoinho , como um furioso e incontrolado tornado
, varrem toda a minha paz e me deixam prostrado e sem força.
Dei abrigo , há uns dois meses atrás , a uma cadelita,
forçada pelas circunstâncias a estar vadia,
e , depois da sua vinda , a minha vida ficou diferente. Tratar-se-á de
uma coincidência ou haverá uma relação efectiva?!
Não sei !
( «Há!» , responderei , mais tarde…)
Quantas não são as vezes em que procuramos sinais, uns mais
estranhos que outros, que ajudem a explicar as (aparentemente) pouco
explicáveis mudanças na nossa condição de vida?
E depois, ao fim de bastante tempo sem que a cadela voltasse
a casa, pensei: parece que me sinto mais calmo. “Era ela que me estava a trazer
má sorte…”
A fé é extraordinária! É uma esperança reforçada por um elo
invisível entre nós e o divino. É como
se tomássemos um whisky duplo em vez de um whisky normal.
Está difícil a minha existência neste particular momento.
Estou vazio de bem-estar e cheio de dor. Tudo parece conspirar contra mim.
Principalmente, eu próprio.
Vivo entre paredes carregadas de angústia. Mesmo o espaço
aberto me aperta os sentidos e parece não haver lugar no mundo onde encontre
paz. A desesperança se instalou.
Vida é sofrimento.
Quem nunca sofreu?! Eu, por deus, tenho a minha dose.
Abismo! Cair, é a minha única vontade.
Paralisado! Estático! Em pânico! Colado num pedaço inerte de
tempo. Peso uma tonelada mas, paradoxalmente, estou pronto a ser levado pelo
vento, como uma pena.
Tudo a uma distância ínfima: a luz , a beleza, o amor…
Imperfeição constante…
Encaixou a sua face na concavidade feita entre o meu ombro e
o pescoço e percebi, por segundos, que podia haver uma outra saída, para além
da fuga. Ficar aqui, podia ser, afinal, ter todo o mundo. Já não precisava de
viajar até Nova Iorque ou Paris. Os dois corpos, ali juntos, sentados no
improvisado banco debaixo da velha pereira, deram-me a sensação de
tranquilidade e fizeram com que pensasse na possibilidade de encontrar a paz
perdida. Foi por pouco tempo. As nuvens adensaram-se e começaram a avançar,
céleres e cinzentas, em nossa direcção. Em pouco tempo a chuva começou e com
ela desapareceu a ilusão que o meu desejo construíra.
- És um perdulário! – Atirou-me, mais tarde, sentada no sofá
vermelho em frente ao meu.
Olhei-a, no verde da sua iris, e veio uma vontade enorme de
chorar.
De súbito, o ladrar de um cão na vizinhança, alvoroçou os
meus.
Agarrei-lhe a mão, olhando de novo nos seus olhos densos. A
chuva que entretanto parara, recomeçou a cair, agora numa melopeia inquietante.
Senti frio.
- Estou farto do inverno – disse-lhe. Os cães , quando
voltam a casa, vêm todos molhados e sujos . É uma porcaria. Está sempre tudo
sujo.
-Tudo na vida tem o seu tempo , Rafael. Ao inverno segue-se
a primavera e é necessário ter paciência e sabedoria.
(Sabedoria paciente, pensei)
- escrito em Novembro ou Dezembro de 2013 -
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Coisas boas
Roubado do FB de Maló de Abreu(postado por ele em 16.1.2015):
"De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar - e um barco e uma linha e um anzol para pescar? De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim carregado de flor de cheirar? De que mais precisa um homem senão de um amigo, desses para a paz e para a briga, um amigo de casa e de bar? De que mais precisa um homem senão de uma mulher para amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular? Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher - as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo."
_________________________________
[LIBELO (adaptado) | Vinicius de Moraes]
domingo, 11 de janeiro de 2015
Solidão
A solidão dilacera!
Como um frio que entra pele adentro e se vai instalar directamente na alma.
Como um frio que entra pele adentro e se vai instalar directamente na alma.
sábado, 3 de janeiro de 2015
R.
Talvez seja por ti que hoje me apetece celebrar a vida.
Tenho vivido enclausurado dentro da minha melancolia , de tal forma , que os dias foram ficando todos iguais , todos cinzentos e sem graça , todos passando lentamente , todos sem esperança.
Mas agora que o teu rosto atravessa os meus pensamentos parece estar a renascer , lentamente , a vontade de viver a vida . Bem sei que há tanta coisa que nos separa . ..
Tenho vivido enclausurado dentro da minha melancolia , de tal forma , que os dias foram ficando todos iguais , todos cinzentos e sem graça , todos passando lentamente , todos sem esperança.
Mas agora que o teu rosto atravessa os meus pensamentos parece estar a renascer , lentamente , a vontade de viver a vida . Bem sei que há tanta coisa que nos separa . ..
domingo, 28 de dezembro de 2014
Excitação
Estou com o estômago às voltas. Normalmente acontece quando , inebriado , me entusiasmo com uma bonita e generosa ideia de amor , que me põe numa excitação tal que o estômago , antes do coração, é o primeiro a ceder.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Esquecimento
Não estou preparado para envelhecer ! , o que é um transtorno muito grande porque não há forma de parar o tempo,logo o processo de envelhecimento. Então vejo-me confrontado a toda a hora com circunstancias que me deixam perplexo e angustiado. A falta de memória, por exemplo , um dos sintomas da velhice , é , ao mesmo tempo uma coisa engraçada e perturbante.Esquecer não faz mal nenhum quando nos faz perder pensamentos , actos , palavras e gestos que nos desagradaram ou outros que não interessam para nada. Mas é chato quando combinamos um encontro importante ou nos comprometemos a ir buscar alguém ao comboio e nos esquecemos completamente. Ou ainda se deixamos a chave de casa em cima da mesa da sala e saímos todos confiantes para a nossa vidinha. É chato! traz-nos problemas e contratempos que podem sair caros...
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Questões de linguagem ou talvez não
"Mataste o homem."
Tinha ido à mercearia local , onde também se vende a sorte da santa casa e estas palavras foram proferidas assim , à queima roupa. Ao princípio levei a coisa como uma brincadeira ( de mau gosto ) que algumas pessoas , por estas bandas, usam um pouco. Por isso não dei grande importância à coisa.
Não me lembro bem se estava sol. Não chovia , disso lembro-me ! O Zé Augusto saiu da loja e ainda falei com ele cá fora sem que fosse preciso guarda-chuva. Por isso , realmente , não chovia. Não sei porque razão não esclareci , logo ali , aquelas palavras. Sou de um género de pessoas que gosta de trilhar o caminho mais difícil.
O homem, o tal que eu tinha morto , acabara de ser internado no hospital. Tem setenta e oito ou setenta e nove anos e , segundo se diz , tem um tumor na cabeça.
Cresci numa modesta aldeia de Portugal onde o nível de educação e cultura foi muito baixo . Quando fui pequeno , não havia televisão , poucas seriam as pessoas que tinham rádio e muitas , tão pouco , sabiam ler e escrever.A qualidade da comunicação não podia ser a melhor. Ainda hoje existem , por aqui , nas pessoas com mais idade , resquícios desses tempos.
Tinha ido à mercearia local , onde também se vende a sorte da santa casa e estas palavras foram proferidas assim , à queima roupa. Ao princípio levei a coisa como uma brincadeira ( de mau gosto ) que algumas pessoas , por estas bandas, usam um pouco. Por isso não dei grande importância à coisa.
Não me lembro bem se estava sol. Não chovia , disso lembro-me ! O Zé Augusto saiu da loja e ainda falei com ele cá fora sem que fosse preciso guarda-chuva. Por isso , realmente , não chovia. Não sei porque razão não esclareci , logo ali , aquelas palavras. Sou de um género de pessoas que gosta de trilhar o caminho mais difícil.
O homem, o tal que eu tinha morto , acabara de ser internado no hospital. Tem setenta e oito ou setenta e nove anos e , segundo se diz , tem um tumor na cabeça.
Cresci numa modesta aldeia de Portugal onde o nível de educação e cultura foi muito baixo . Quando fui pequeno , não havia televisão , poucas seriam as pessoas que tinham rádio e muitas , tão pouco , sabiam ler e escrever.A qualidade da comunicação não podia ser a melhor. Ainda hoje existem , por aqui , nas pessoas com mais idade , resquícios desses tempos.
No shopping
Atravessou a rua , na passadeira . Havia alturas em que tinha tão pouca confiança em si próprio que tinha medo de tudo .Os automóveis não eram excepção e só sentia segurança se atravessasse a rua nos locais apropriados para o efeito ou , não os havendo , depois de se certificar da absoluta segurança do acto. Chegava a rir - se da situação mas era assim mesmo. Alcançou então o outro lado e começou a caminhar pelo passeio na direcção pretendida. Sentiu um prazer muito infantil em estar ali àquela hora , livre e sem pressa. A falta de compromisso que , tantas vezes , lhe dava uma inquietante angústia , estava agora a proporcionar - lhe , para além de uma invulgar leveza , uma inebriante sensação de liberdade. Aproveitou então o momento.
Deviam ser umas onze ou onze e meia da manhã. O dia nascera azul , quente , claro e sem chuva. Parecia primavera mas estávamos no Outono. Domingo. Muita gente na rua. Pessoas a pé , algumas de bicicleta e bastantes carros. Apetecia sair de casa depois de tanta chuva . O dia estava belíssimo.
A calçada entretanto acabara e , sem passadeira , atravessou a rua a correr. Antes , olhou duas vezes para cada lado garantindo de que não havia qualquer perigo. Sorriu como um idiota.
Até ao centro comercial deviam ser ainda uns cem metros ou coisa assim. Caminhou tranquilamente olhando em redor como se fosse a primeira vez que calcorreava aquelas paragens. Não era.
Como estão cada vez mais bonitas estas mulheres,pensou.Deus existe,afinal!
Já dentro do edifício , subiu as escadas até ao primeiro andar e entrou na tabacaria. Deu uma vista de olhos nas revistas e jornais mas apenas comprou os cigarros que queria. A empregada era uma miúda muito simpática , com uns cabelos muito bem arranjados e umas mãos elegantes. « Com um dia tão bonito está você aqui fechada? » , perguntou - lhe , sorrindo. Ela sorriu e disse: « Saio daqui a meia hora . Ainda vou aproveitar o dia » . Àquela hora , não havia muita gente no shopping . Andavam todos fora a aproveitar a bondade do tempo .
Deviam ser umas onze ou onze e meia da manhã. O dia nascera azul , quente , claro e sem chuva. Parecia primavera mas estávamos no Outono. Domingo. Muita gente na rua. Pessoas a pé , algumas de bicicleta e bastantes carros. Apetecia sair de casa depois de tanta chuva . O dia estava belíssimo.
A calçada entretanto acabara e , sem passadeira , atravessou a rua a correr. Antes , olhou duas vezes para cada lado garantindo de que não havia qualquer perigo. Sorriu como um idiota.
Até ao centro comercial deviam ser ainda uns cem metros ou coisa assim. Caminhou tranquilamente olhando em redor como se fosse a primeira vez que calcorreava aquelas paragens. Não era.
Como estão cada vez mais bonitas estas mulheres,pensou.Deus existe,afinal!
Já dentro do edifício , subiu as escadas até ao primeiro andar e entrou na tabacaria. Deu uma vista de olhos nas revistas e jornais mas apenas comprou os cigarros que queria. A empregada era uma miúda muito simpática , com uns cabelos muito bem arranjados e umas mãos elegantes. « Com um dia tão bonito está você aqui fechada? » , perguntou - lhe , sorrindo. Ela sorriu e disse: « Saio daqui a meia hora . Ainda vou aproveitar o dia » . Àquela hora , não havia muita gente no shopping . Andavam todos fora a aproveitar a bondade do tempo .
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