Transcrito de um rascunho sem data-
Foi mais forte do que eu , foi quase automático , direi até. Só depois , algum tempo depois , quando ela começou a ponderar as razões da sua vinda até mim e recuou , uma outra vez , é que tomei consciência do que me tinha acontecido: o meu velho eu , o do solitário empedernido , tinha - se sobreposto ao meu eu presente e ao projecto de um novo eu que se começava a desenhar lentamente.
Por razões diferentes , ambos nos reencontramos com o passado .
- " Mandaste - me embora " - disse - me ela repetidas vezes (talvez como justificativo à sua própria decisão ) quando , mais tarde , a tentei (re)conquistar mas já não fui a tempo!
Se alguma vez tinha estado disposta a trocar a sua antiga paixão por uma nova paixão por mim , deixou de para isso estar disponível quando lhe disse , naquela tarde de domingo , que gostaria de ter um filho . Eu sabia que ela não podia nem queria , se pudesse , ter mais filhos.
" Fiquei estarrecida " - ter-me-á dito depois - "Fiquei sem chão no momento em que me disseste aquilo " , repetiu algumas vezes sempre que a conversa se encaminhava no sentido de descobrir as razões do nosso afastamento.
domingo, 28 de julho de 2013
Nuvens
Os dias têm ameaçado e hoje acabou mesmo por cair uma chuva , não muito duradoira , é verdade , mas ainda assim boa para a terra sequiosa e necessitada desta altura do ano.
Não estou integralmente aqui.
Alguns pensamentos esvoaçam em direcção ao mar , à procura de ti , que me deixaste aqui no silêncio da dúvida , com um aperto no peito causado pela angústia da separação.
Passeei o cão mas sem a alegria do costume , de olhos baixos , sentindo a falta da tua voz , o brilho dos teus olhos e a beleza do teu corpo.
Estou um pouco perdido . Não sei o que fazer aos minutos.
Deverei ir à tua procura?!...
Não estou integralmente aqui.
Alguns pensamentos esvoaçam em direcção ao mar , à procura de ti , que me deixaste aqui no silêncio da dúvida , com um aperto no peito causado pela angústia da separação.
Passeei o cão mas sem a alegria do costume , de olhos baixos , sentindo a falta da tua voz , o brilho dos teus olhos e a beleza do teu corpo.
Estou um pouco perdido . Não sei o que fazer aos minutos.
Deverei ir à tua procura?!...
quinta-feira, 25 de julho de 2013
S. Tiago
Dia de S.Tiago.
Hoje é feriado no município de Cantanhede e aqui na Pocariça terminam os festejos em honra do santo , com uma arruada feita pela banda , que foi seguida de uma missa na capela de S. Tomé ( que não deve gostar muito da brincadeira...) havendo depois, a encerrar , uma procissão que atravessará algumas ruas do lugar .
Esta rua onde vivo , tem nas margens uns vasos de flores e plantas e ainda agorinha mesmo , foram espalhados ramos de diversos arbustos bem no meio , por onde irá passar a procissão , com o pendão , as imagens da Nossa Senhora e do S. Tiago e o andor.
Hoje é feriado no município de Cantanhede e aqui na Pocariça terminam os festejos em honra do santo , com uma arruada feita pela banda , que foi seguida de uma missa na capela de S. Tomé ( que não deve gostar muito da brincadeira...) havendo depois, a encerrar , uma procissão que atravessará algumas ruas do lugar .
Esta rua onde vivo , tem nas margens uns vasos de flores e plantas e ainda agorinha mesmo , foram espalhados ramos de diversos arbustos bem no meio , por onde irá passar a procissão , com o pendão , as imagens da Nossa Senhora e do S. Tiago e o andor.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Domingo
Enquanto lá fora a chuva cai , incessante e intensa ,alagando os campos outrora secos e gretados , por aqui , na casa antiga , ao abrigo da intempérie , recordo , já com alguma nostalgia , o dia de ontem passado entre pessoas felizes com crianças felizes.
terça-feira, 19 de março de 2013
Contingências do amor
Chego à conclusão que S. , voluntária ou involuntariamente , nunca foi honesta comigo , se é que , em questões de amor , a palavra honestidade tem algum cabimento.
Bem sei que fui o primeiro a afirmar que a nossa relação não tinha futuro mas não esqueço o alivio que ela pareceu demonstrar quando lhe disse isso. Afirmou , quase de seguida , o que nunca antes tinha dito: que estava a sair de uma relação mas não tinha a certeza se era isso que na verdade queria e que , portanto , de certa maneira, o que eu lhe acabara de dizer até tornava as coisas mais fáceis. É assim que me lembro da conversa.
Se houve surpresa , houve também alívio . Para um e para o outro.
Naturalmente que a partir daí as coisas , entre nós , ficaram diferentes. Mas , assim mesmo , a nossa relação durou ainda quase mais dois meses e houve até um momento em que , afinal , me apaixonei por ela. Nessa altura S. desapareceu. Quando sentiu que me estava a aproximar mais do que ela queria , afastou-se e , desde aí que , sempre que penso no que se passou , cresce esta ideia que na atitude dela houve sempre alguma desonestidade , se assim lhe posso chamar .
Bem sei que fui o primeiro a afirmar que a nossa relação não tinha futuro mas não esqueço o alivio que ela pareceu demonstrar quando lhe disse isso. Afirmou , quase de seguida , o que nunca antes tinha dito: que estava a sair de uma relação mas não tinha a certeza se era isso que na verdade queria e que , portanto , de certa maneira, o que eu lhe acabara de dizer até tornava as coisas mais fáceis. É assim que me lembro da conversa.
Se houve surpresa , houve também alívio . Para um e para o outro.
Naturalmente que a partir daí as coisas , entre nós , ficaram diferentes. Mas , assim mesmo , a nossa relação durou ainda quase mais dois meses e houve até um momento em que , afinal , me apaixonei por ela. Nessa altura S. desapareceu. Quando sentiu que me estava a aproximar mais do que ela queria , afastou-se e , desde aí que , sempre que penso no que se passou , cresce esta ideia que na atitude dela houve sempre alguma desonestidade , se assim lhe posso chamar .
sábado, 16 de março de 2013
Seguro
Seguro , não é mais a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo transitivo , segurar. Seguro , é o apelido do actual chefe do maior partido da oposição em Portugal , o PS , e é , a primeira e ultima pessoa de todos os tempos e modos de um verbo de encher.
domingo, 10 de março de 2013
Discoteca
Um escandaloso emaranhado de sons,
cores penduradas pelas paredes,
sorrisos espalhados na atmosfera,
corpos esguios , movendo -se ,
uns junto aos outros,
num saboroso crepitar
de emoções.
cores penduradas pelas paredes,
sorrisos espalhados na atmosfera,
corpos esguios , movendo -se ,
uns junto aos outros,
num saboroso crepitar
de emoções.
sábado, 9 de março de 2013
Memória
Na altura não percebi quanto uma mulher podia fazer diferença na minha vida. Vivera demasiado tempo na enganadora ilusão de que não precisava de ninguém , de que era muito bem capaz de viver sozinho e por isso dispensava as mulheres , não queria complicações , dizia para mim mesmo. Como se alguém pudesse ser feliz sozinho...!
Mas tinham sido muitos os anos de solidão e de um registo unipessoal e não partilhado de vida , que , sem que eu tivesse dado verdadeiramente conta , tinham tomado conta de mim ao ponto de não me aperceber sequer de quanto infeliz realmente era.
Quando ela veio até mim , julgava estar preparado para assumir uma relação a dois . Além de começar a sentir o enorme peso exercido pela solidão , sentia o tempo a escapar-se . No entanto , a bagagem de solidão que carregava não me deixou ver com clareza a oportunidade que aquela inesperada aproximação me dava e muito depressa a quis afastar de mim.
S. tentava sair de uma relação que a deixava infeliz e amargurada e tinha visto em mim uma espécie de bóia de salvação para a infelicidade em que vivia. Quis avançar muito depressa , muito mais depressa do que aquilo de que eu era capaz . Eu não estava realmente preparado para romper de repente com um padrão de vida que há muitos anos mantinha , por maior que essa fosse a minha vontade . Eu estava impregnado de individualismo e solidão. Queria muito libertar - me disso , quero muito sair disso , mas as coisas comigo não se mudam do dia para a noite.
Comecei a arranjar desculpas. Desculpas esfarrapadas , vejo eu agora , mas toda a espécie de desculpas . Primeiro tentava convencer - me de que ela não era a mulher certa, que não tinha o corpo com que sempre sonhara para uma mulher , depois que perderia a liberdade a que tanto estava habituado e tanto prezava e finalmente que com ela não poderia ter filhos e isso , de um momento para o outro , era fundamental para a minha vida.
Mas tinham sido muitos os anos de solidão e de um registo unipessoal e não partilhado de vida , que , sem que eu tivesse dado verdadeiramente conta , tinham tomado conta de mim ao ponto de não me aperceber sequer de quanto infeliz realmente era.
Quando ela veio até mim , julgava estar preparado para assumir uma relação a dois . Além de começar a sentir o enorme peso exercido pela solidão , sentia o tempo a escapar-se . No entanto , a bagagem de solidão que carregava não me deixou ver com clareza a oportunidade que aquela inesperada aproximação me dava e muito depressa a quis afastar de mim.
S. tentava sair de uma relação que a deixava infeliz e amargurada e tinha visto em mim uma espécie de bóia de salvação para a infelicidade em que vivia. Quis avançar muito depressa , muito mais depressa do que aquilo de que eu era capaz . Eu não estava realmente preparado para romper de repente com um padrão de vida que há muitos anos mantinha , por maior que essa fosse a minha vontade . Eu estava impregnado de individualismo e solidão. Queria muito libertar - me disso , quero muito sair disso , mas as coisas comigo não se mudam do dia para a noite.
Comecei a arranjar desculpas. Desculpas esfarrapadas , vejo eu agora , mas toda a espécie de desculpas . Primeiro tentava convencer - me de que ela não era a mulher certa, que não tinha o corpo com que sempre sonhara para uma mulher , depois que perderia a liberdade a que tanto estava habituado e tanto prezava e finalmente que com ela não poderia ter filhos e isso , de um momento para o outro , era fundamental para a minha vida.
quarta-feira, 6 de março de 2013
Adolescência
Apetece gritar alto e em bom som , como um adolescente inebriado faria : "Amo-te Raquel " , quem dera aqui estivesses e eu te pudesse sussurrar esse amor , olhando - te de perto , sentindo , no silêncio do aconchegante sofá, bem junto a mim , a tua respiração tranquila e nos embalássemos para dentro do amor com o bailado do crepitar da fogueira diante de nós.
Raquel
Não te posso dar ouro nem incenso.
Apenas palavras .
Palavras que por si só não têm valor , mas que uso para transmitir o meu amor . Um amor insano , sonhador , porventura irrealizável , mas incondicional , sentido e verdadeiro.
Não estou mais em altura de ter medo nem vergonha de te dizer , Raquel , que te quero , que te amo , que te desejo.
Acordo a pensar em ti e , mesmo não sendo possível , sinto o teu perfume à minha volta assim que , pela manhã , respiro as primeiras golfadas de ar .
segunda-feira, 4 de março de 2013
Fred
O meu cão - o Fred,um braco alemão - que está comigo há apenas um mês, veio até mim já com quase quatro anos de idade ; é portanto um jovem adulto ou um adulto ainda jovem.
De acordo com o seu anterior dono , o Fred , não teve qualquer experiência íntima , com o género oposto. Teve também pouca convivência social , passe a expressão, quer com pessoas, quer com outros animais , incluindo os da sua espécie. Passou grande parte da sua vida , preso. Por isso e por não ser bom caçador , veio para aqui. E ainda bem , digo eu agora , dado que se tornou um grande companheiro.
E foi porventura este seu passado de alguma solidão que fez com que , sem dificuldade , se tivesse dado bem com a gata Matilde, contrariando a proverbial incompatibilidade entre as duas espécies. Mas não foi só uma vontade de socializar que provocou esta improvável amizade. O Fred solidarizou-se com o frágil e débil estado da gatinha , provocado por rixas anteriores tidas com seus congéneres. Assim que se apercebeu que a gata estava diminuída e doente , deixou de parte as ancestrais diferenças que afastam cão e gato , e adoptou - a como amiga , uma grande amiga até.
Obrigado Fred , pelo exemplo.
De acordo com o seu anterior dono , o Fred , não teve qualquer experiência íntima , com o género oposto. Teve também pouca convivência social , passe a expressão, quer com pessoas, quer com outros animais , incluindo os da sua espécie. Passou grande parte da sua vida , preso. Por isso e por não ser bom caçador , veio para aqui. E ainda bem , digo eu agora , dado que se tornou um grande companheiro.
E foi porventura este seu passado de alguma solidão que fez com que , sem dificuldade , se tivesse dado bem com a gata Matilde, contrariando a proverbial incompatibilidade entre as duas espécies. Mas não foi só uma vontade de socializar que provocou esta improvável amizade. O Fred solidarizou-se com o frágil e débil estado da gatinha , provocado por rixas anteriores tidas com seus congéneres. Assim que se apercebeu que a gata estava diminuída e doente , deixou de parte as ancestrais diferenças que afastam cão e gato , e adoptou - a como amiga , uma grande amiga até.
Obrigado Fred , pelo exemplo.
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